Brasil no Índice Global de Inovação: o que há na água do copo?
Por Leonardo Cordeiro
O Índice Global de Inovação de 2026 (GII), divulgado em 29 de setembro pela Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI), compara 139 economias por meio de 79 indicadores, que vão das instituições e da formação de pessoas aos resultados científicos, tecnológicos e criativos.
O resultado brasileiro permite olhar o copo por dois ângulos. Meio cheio: o país passou da 66ª posição, em 2019, para a 53ª, em 2026. Meio vazio: depois de alcançar o 49º lugar em 2023, caiu para 50º em 2024, 52º em 2025 e 53º neste ano. Na América Latina e no Caribe, segue em segundo, atrás do Chile (51º), e é a única economia da região com desempenho acima do esperado para seu nível de desenvolvimento pelo sexto ano consecutivo.
Mais do que discutir o nível do copo, proponho olhar para a água. O Brasil já sabe gerar conhecimento e protegê-lo. O gargalo está no passo seguinte: transformar esses ativos em produtos, empresas, contratos e produtividade. A propriedade intelectual só cumpre seu papel quando a proteção está conectada a decisões de desenvolvimento, investimento e exploração, e quando alguém acompanha o destino de cada ativo.
Forças que não se convertem
Os indicadores do GII mostram esse descompasso. O país aparece em 8º lugar em atividade de marcas, 16º em capital de risco em estágios avançados e 24º em modelos de utilidade. Mas ocupa o 129º em ambiente de negócios, o 101º em graduados em ciência e engenharia e o 94º em crescimento da produtividade do trabalho.
A posição em marcas mede volume de pedidos, não inovação em si, mas indica um mercado que valoriza seus sinais distintivos. Os modelos de utilidade lembram que a inovação incremental, que aperfeiçoa produtos e processos, também constrói competitividade. Já as fragilidades estão justamente nas condições de conversão: gente qualificada, ambiente favorável a empreender e ganho de produtividade.
Uma base ativa, mas concentrada
A demanda por proteção existe. Segundo o INPI, residentes apresentaram em 2025 mais de 400 mil pedidos de marcas e mais de 7 mil de patentes de invenção. Entre os 51 maiores depositantes residentes de patentes, 36 (cerca de 71%) são entidades públicas, principalmente universidades e institutos de pesquisa, embora Stellantis e Petrobras ocupem as duas primeiras posições.
Essa base está geograficamente concentrada. São Paulo é o único polo brasileiro entre os 100 primeiros do ranking de polos de inovação da OMPI, em 49º, e o mais bem colocado da América Latina. O Deep Tech Radar Brazil 2025, da Emerge, identifica 952 empresas de base científica no país, 64% delas no Sudeste e quase metade apenas em São Paulo.
O que acontece depois do depósito
Depositar uma patente, licenciar uma tecnologia e colocar um produto no mercado são etapas distintas. Sabemos muito mais sobre a primeira do que sobre as demais: o volume de pedidos é público e acompanhado ano a ano, mas raramente se discute quantos desses ativos chegam a contratos, produtos ou empresas. Essa é a parte da água que menos enxergamos.
A pesquisa pública tem funções que vão muito além de gerar receita, e uma tecnologia pode levar anos para amadurecer. Ainda assim, manter direitos custa dinheiro e exige estratégia. Uma patente concedida não se licencia sozinha: é preciso equipe para buscar parceiros, negociar contratos e organizar provas de conceito.
O Estado tem avançado em parte dessa agenda. A modernização digital do INPI facilita o acesso ao sistema, mas precisa se traduzir em exame com qualidade e prazos compatíveis com decisões de investimento. Editais como os do Pró-Infra, que somam R$ 1 bilhão previstos, sustentam a infraestrutura científica, mas seu efeito depende de conexão com as etapas seguintes do desenvolvimento.
As empresas também precisam ampliar seus esforços. O Brasil ocupa a 36ª posição em P&D executado pelo setor empresarial. Combinar melhorias incrementais com projetos de maior risco, aproveitando competências das universidades, é parte da resposta.
Três ações para transformar diagnóstico em gestão
A primeira é instituir revisões periódicas dos portfólios, com critérios claros para manter, ampliar, licenciar ou abandonar cada proteção, considerando perspectivas de desenvolvimento, parceiros potenciais e custos. A biotecnologia mostra por que isso importa: pesquisas caras, maturação longa, exigências regulatórias e os limites da lei brasileira à proteção de materiais biológicos naturais (salvo microrganismos transgênicos) obrigam a pensar patentes, know-how, regulação e estratégia comercial em conjunto, desde a concepção do projeto.
A segunda é financiar provas de conceito e validação com participação de potenciais parceiros empresariais, aproximando a pesquisa das condições reais de aplicação.
A terceira é avaliar a transferência de tecnologia pelo uso efetivo e pelos resultados econômicos e sociais (contratos executados, produtos desenvolvidos, empresas criadas), e não apenas pelo número de pedidos.
Nenhuma dessas ações substitui formação científica, pesquisa empresarial e um bom ambiente de negócios. Mas elas dependem sobretudo de decisões de gestão e podem começar agora.
O avanço desde 2019 merece reconhecimento; a perda de posições desde 2023 merece atenção. Mas discutir se o copo está meio cheio ou meio vazio importa menos do que decidir o que fazer com a água. E essa decisão passa pela propriedade intelectual, não como registro, mas como estratégia.